O investimento-anjo feminino como força para empreendedoras

O que motiva uma mulher a se tornar uma investidora-anjo? Como as mulheres estão encarando este desafio, quais são as inspirações e dificuldades que elas enfrentam?

O empreendedorismo e o investimento-anjo estão em alta no Brasil, nunca se falou tanto em como essas duas ferramentas podem ajudar a desenvolver o país e gerar novos conceitos e práticas, principalmente no mercado.

E para apresentar este universo que além de notoriedade vem ganhando força, conversei com duas investidoras-anjo, uma mais experiente e outra que realizou seu primeiro investimento recentemente. Através das histórias delas é possível mostrar na prática como as mulheres estão alçando seus primeiros voos.

Como toda ação gera inevitavelmente uma reação, o fato delas estarem “invadindo” o ecossistema empreendedor tem gerado e vai gerar ainda mais modificações no cenário como um todo, afinal, as mulheres já provaram que são resilientes e estão dispostas (principalmente) a apoiar projetos que são liderados por empreendedores e empreendedoras.

E para começar eu bati um papo com a investidora Patrícia Barizon, que é formada em Comunicação Social pela UFRJ e hoje atua como empresária em uma agência de comunicação e marketing. Assim como acontece com a grande parte das mulheres que começam a despertar para o assunto, Patrícia teve seu primeiro contato com este universo através da experiência com amigos.

“Fui à praia com um amigo brasileiro que havia se mudado pra Austrália, que me falou do desejo dele, após fazer pesquisa de mercado lá, de abrir um negócio. Mas que precisava de investimento e de algum tipo de mentoria. Na semana seguinte, fui convidada por amigas que já investem a participar de uma reunião do Mulheres Investidoras Anjo (MIA) e lá descobri o termo investidora-anjo e suas atribuições. Caiu a ficha pra mim que este poderia ser exatamente o meu papel junto ao meu amigo na Austrália. Liguei pra ele, recebi um business plan, além do pitch. Ouvi com mais atenção o projeto, fiz as perguntas que cabem a uma investidora e bati o martelo”, conta Patrícia como tudo começou.

Desde então a empresária começou a se envolver mais e principalmente a entender mais o que de fato seriam suas obrigações como anjo. A empresa escolhida do amigo é de um típico produto brasileiro que tem como produto principal as cangas, que tem como objetivo introduzir o produto no mercado australiano, que conhece apenas as toalhas de praia.

“Este foi meu único investimento até o momento, mas estou bem atenta ao mercado e as novas possibilidades. O interessante do investimento-anjo é que mesmo com um percentual minoritário você passa a fazer parte efetivamente de um negócio que acredita.” Ela ainda afirma que mesmo ciente que a investidora-anjo, via de regra, aposta em empresas de tecnologia por conta do alto potencial de escalabilidade, ela entende que em breve irá unir inovação ao modelo do empreendedor e assim potencializar sua estratégia de crescimento.

“Apesar do nosso produto ser praticamente artesanal, estamos utilizando a inovação como mola propulsora, contratamos uma consultora renomada no mercado que está desenvolvendo uma estratégia digital para aumentar nosso alcance e para que possamos através das mídias sociais conquistar novos clientes e abrir mercado”, expõe.

A experiência de Patrícia tem se tornado mais comum a cada dia. Não é segredo para ninguém que o mercado de investimentos foi e ainda é predominantemente masculino, mas não é difícil notar que este cenário esta mudando gradativamente.

“Sempre existiu, mas era informal, sem a mulher saber que teria um conceito, um caminho. Ela fazia por intuição de que poderia dar certo ou para ajudar uma pessoa com uma boa ideia. Agora, esta atividade começa a ser conhecida, começa a ser formalizada, difundida, pessoas começam a aparecer como referência, o que deixa mais fácil pra quem quiser entrar. Atualmente existe uma bibliografia, grupos conhecidos, conteúdo especializado. As mulheres sempre foram as grandes incentivadoras dos maridos, dos filhos, são antenadas, são generosas, detalhistas, então é natural que elas possam atuar bem neste tipo de iniciativa”, lembra Patrícia.

O fato é que me sinto muito confortável ao dizer que assim como Patrícia destacou, as mulheres sempre estiveram presentes nos negócios, seja de forma direta ou não. Mas o que realmente importa é que agora elas estão pesquisando, se preparando para mais do que simplesmente colocar dinheiro em ideias e empresas nascentes, mas sim para fazerem parte de negócios que realmente acreditam.

E por falar em preparação e estruturação, a história da Ana Paula Pessoa que atualmente é executiva e ocupa o cargo de Diretora Financeira da Rio 2016, com o investimento-anjo é uma paixão antiga. Ana é formada pela Universidade de Stanford na Califórnia, ou seja, viveu durante anos no berço do empreendedorismo e respirou os ares do Vale do Silício.

Ela trabalhou no Grupo Globo por 18 anos e foi lá que teve contato com as primeiras startups e quando saiu em 2011 resolveu investir seu próprio dinheiro e se tornar um anjo. “Eu já toquei uma das empresas que investi e gosto de estar presente, ajudar a empresa a crescer. Quando o assunto é investimento-anjo no Brasil percebo que ainda estamos engatinhando, principalmente no quesito legal, a estrutura jurídica e financeira de boa parte das startups ainda deixa muito a desejar, mas já vejo sinais de melhoras.”, pontua Ana.

Ana já realizou oito investimentos até o momento e para ela uma startup precisa ter em seu DNA a inovação como base, seja em processos, tecnologia, e a estruturação é fundamental para o sucesso de um negócio.

“Acredito em boas ideias, em vontade de fazer acontecer e principalmente no empreendedor que esta por trás e precisa viver seu negócio 100% todos os dias. Mas volto a dizer que a preparação é o fator chave entre o sucesso e fracasso de uma startup. Sabemos que muitos empreendedores ainda precisam aprender como usufruir de um investidor e aproveitá-los em seu negócio. Existe também aquele que chega despreparado para a conversa inicial e então ele perde grandes chances. É claro que eu compreendo que o problema é cultural, nossas universidades não preparam seus alunos e assim por diante. O fato é que acredito no investimento anjo como sendo uma excelente opção para diversificar os investimentos (com pouco dinheiro) e obter retornos acima da média de mercado, mas cabe ao investidor selecionar e investir em negócios realmente sólidos e com futuro promissor”, argumenta Ana.

Uma coisa que precisa ficar clara é que quando falamos em investimento-anjo estamos falando de smart money, ou seja, os anjos colocam dinheiro, mas também tempo e trabalho a disposição para fazer o negócio crescer, dependendo obviamente do tipo de investidor. Ser um anjo, como o próprio nome já sugere, esta relacionado à “proteção”, orientação e tomadas de decisões estratégicas.

De encontro ao que a Ana disse a Patrícia revelou que suas dificuldades estão relacionadas à parte contábil. “A maior dificuldade que enfrentei até aqui foi o desconhecimento sobre alguns assuntos que não nunca foram muito a minha área, como parte tributária, fiscal, contábil. Acabo recorrendo ao marido, que é da área financeira. E como eu já mencionei, é importante também que no início as mulheres tenham alguém para usarem como referência. Sempre que preciso recorro aos grupos de anjos e ao Grupo MIA. A Lindália Junqueira, que foi diretora de uma pré-aceleradora de startups e é uma grande amiga com quem converso sempre também. Ainda tenho um outro mentor, que é investidor pessoa física, mas também decide sobre venture capital como VP de um grande fundo de investimento em SP, Bernardo Zamijosvki”, explica Patrícia.

Este, aliás, é um exemplo que as leitoras podem adotar para suas vidas! É fundamental fazer parte de algum grupo de investidoras ou pelo menos ter pessoas com quem conversar, compartilhar ideias e projetos. Assim como qualquer investimento existem riscos ao se tornar um anjo. É sempre bom trocar ideias antes de tomar decisões. Pessoas diferentes, com formação e visão diferente da sua tende a te mostrar o que você não veria sozinha.

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“Acredito muito no investimento-anjo, apesar dos problemas que mencionei, assim como tudo na vida há um período de adaptação, reparo, erros e acertos. Através da preparação e de uma mudança de cultura temos tudo para fazer boas ideias ganharem vida e o mercado”. Ana Paula Pessoa.

“Acredito que o investimento anjo pode ser um grande motor de desenvolvimento e que pode ajudar a reduzir o desemprego. Sem contar que aumenta a chance de termos produtos e empresas mais criativas, mais inovadoras, e com o auxilio sim das mulheres que já estão pensando “fora da caixa”. Minha mensagem para as leitoras neste momento é: se você se sentiu tocada por alguém, pelo sonho desta pessoa, pela energia e vontade de realizar dela, acredite! Vá em frente no sentido de investigar, estudar com mais profundidade, para ter certeza de que vale o risco. Intuição é bom, mas não deve ser o fator decisivo para situações assim”. Patrícia Barizon.

By | 2017-02-22T22:57:01+00:00 fevereiro 22nd, 2016|Sem categoria|